Maria
Saleti Lock Vogt
Elioenai Dornelles Alves |
Este
trabalho consiste em uma revisão teórica sobre os pressupostos que orientam a
educação de adultos com o propósito de buscar uma aproximação com a
andragogia. Parte-se de uma contextualização histórica sobre o conceito e a
evolução da educação de adultos a partir da era da industrialização, as
principais diretrizes das conferências internacionais, promovidas pela
Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, os
pressupostos teóricos da educação, a caracterização da andragogia no contexto
das tendências educacionais e os seus postulados. Nesse contexto, a teoria
andragógica proposta por Malcolm Knowles está aqui contextualizada como um
elemento a serviço da educação de adultos, que pressupõe uma visão diferenciada
do ponto de vista da conceção e metodologia do processo educacional.
Palavras-chave:
Educação de adultos. Teorias da educação. Andragogia.
|
1.
Introdução
A
educação tem sido parte integrante de todas as culturas em qualquer época da
história. Assim, diante do desenvolvimento da sociedade, a partir da
industrialização, torna-se mais evidente o consenso mundial de que é preciso
lançar mão de todos os mecanismos sociais na tarefa de responder pela
educação das pessoas na idade adulta.
Para
tanto, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
(UNESCO) se propõe a coligar-se com as comissões nacionais e ajudar as
associações não-governamentais, na realização de programas educativos. Suas
atividades envolvem, entre outras, “apoio à instituição escola e à criação de
bibliotecas, luta contra o analfabetismo e promoção da educação de adultos,
consultoria técnica, didática e pedagógica” (MANACORDA, 1992, p. 353). As
Conferências Internacionais sobre Educação de Adultos (CONFITEAs),
transcorridas na segunda metade do século XX, compreendem um dos seus
principais mecanismos articuladores no âmbito da educação de adultos.
Percebe-se
que, mesmo diante de tantas transformações na vida do ser humano, os sistemas
tradicionais de ensino continuam estruturados como se a mesma pedagogia
utilizada para as crianças devesse ser aplicada aos adultos. Porém, a
educação do adulto já possui um corpo de conhecimentos pautados em
princípios, que podem orientar o processo educacional de modo diferenciado da
educação infantil tradicional.
2.
Abrangência da educação de adultos
Considera-se
que a educação é um dos principais serviços que favorecem o desenvolvimento
socioeconômico de um país, pois ela tem um papel decisivo no desenvolvimento
da sociedade e, em geral, por meio dela se conquista a participação de todos
os seus membros.
Dessa
forma a busca pelo desenvolvimento individual, pela superação pessoal, pelo
desejo de auto-realização e preparo para responder às exigências da vida,
diante do mundo em transformações, impulsiona o homem à necessidade de
educar-se (GUTIÉRREZ; JIMÉNEZ, 2005). Diante desta perspetiva, a educação
torna-se um imperativo diante da vida, até mesmo para a continuidade da
própria espécie.
Para
Ludojoski (1972, p. 27), a “educação é um processo progressivamente
intencional por parte do ser humano em desenvolvimento, tendendo à obtenção
do aperfeiçoamento integral de sua personalidade e em diálogo com a Natureza,
a Cultura e a História, conforme a sua própria individualidade”. À luz desta
conceção, o autor situa a educação como uma necessidade de auto-superação do
próprio ser, para fazer frente às demandas tanto vitais como econômicas,
sociais, religiosas e culturais em geral. A visão da educação como um
elemento integrador também é entendida por Saviani (1980, p. 120) como “um
processo que se caracteriza por uma atividade mediadora no seio da prática
social global. Tem-se, pois, como premissa básica que a educação está sempre
referida a uma sociedade concreta, historicamente situada”.
Antes
de tudo, a educação de adultos implica a compreensão do ser humano na idade
adulta. O adulto é o homem considerado como “um ser em desenvolvimento
histórico que, diante da herança de sua infância, da sua passagem pela
adolescência e a caminho do envelhecimento, continua o processo de
individualização de seu ser e de sua personalidade” (LUDOJOSKI, 1972, p. 20).
Constata-se
que a educação de adultos é complexa de descrever, dada a abrangência do tema
e a variedade de ações, envolvendo instituições ou organizações. A ela se
remetem várias conceções, tais como: substituta da educação primária (combate
ao analfabetismo), complemento do nível elementar, prolongamento do nível
primário, até mesmo como aperfeiçoamento dos níveis superiores. Em geral, a
expressão educação de adultos é utilizada para “designar todas aquelas
atividades educativas destinadas especialmente às pessoas adultas” (VERNER;
BOOTH, 1971, p. 11); a qual abrange um conjunto de atividades diversas, de
tipo formativo e cultural, inclusive de caráter laboral e social (VALLE,
2000).
Na
visão de Ludojoski (1972), a educação de adultos é um conceito muito mais
amplo que o de instrução de adulto, uma vez que o primeiro parte de uma conceção
antropológica e o segundo de uma visão didática da aprendizagem do adulto.
Essa educação, na perspetiva antropológica, vai além da instrução, pois
permite ao sujeito a transcendência, na medida em que cria neste a capacidade
de operar livremente na direção da verdade, do bem e da beleza que conhece.
A
Conferência Geral da UNESCO, em Nairobi (1976), registra a abrangência do
termo educação de adulto, o qual: designa a totalidade dos processos organizados de educação, seja qual
for seu conteúdo, o nível ou o método, sejam formais ou não formais, ou seja,
que prolonguem ou re-iniciem a educação inicial dispensada nas escolas e
universidades e na forma de aprendizagem profissional, graças às quais as
pessoas, consideradas como adulto pela sociedade a que pertencem, desenvolvem
suas atitudes, enriquecem seus conhecimentos, melhoram suas competências e
técnicas profissionais ou lhes dão nova orientação, e fazem evoluir suas
atitudes ou o seu comportamento na dupla perspetiva de um enriquecimento
integral do homem e uma participação em um desenvolvimento socioeconômico e
cultural equilibrado e independente (UNESCO, 2005).
Por
sua vez, a V Conferência Internacional sobre Educação de Adultos (V CONFITEA)
— ocorrida em Hamburgo em 1997 __, vem referendá-la duas décadas depois:
“educação de adultos abrange a educação formal e a educação permanente, a
educação não formal e toda a gama de oportunidades de educação informal e ocasionais
existentes numa sociedade educativa multicultural, em que são reconhecidas as
abordagens teóricas e baseadas na prática” (UNESCO, 1998, p. 7).
O
termo educação de adultos envolve a totalidade de projetos organizados de
educação, independentemente do conteúdo, método e nível, sejam formais ou não
formais com o propósito de prolongar, compensar ou reiniciar a educação
correspondente ao sistema educacional ordinário, desde que se estabeleçam
formas de aprendizagem específicas de caráter profissional ou ocupacional,
nas quais as pessoas consideradas adultas alcançam a dupla perspetiva de um
enriquecimento integral e uma participação no desenvolvimento equilibrado e
independente (GALVÁN, 2004).
Já a
Conferência de Hamburgo inscreve na agenda para o futuro, dentre outras
recomendações, que “a cooperação e a solidariedade internacionais devem
reforçar um novo conceito da educação de adulto, que seja, simultaneamente,
holístico para abarcar todos os aspetos da vida e transetorial para incluir
todas as áreas de atividade cultural, social e econômica” (UNESCO, 1998, p.
37)
De um
modo geral, a preocupação a respeito da educação das pessoas adultas, está
voltada para a esfera da educação nos níveis primário e elementar, porém
muitas sociedades já estão atentas à questão da alfabetização funcional
(alfabetização cultural e tecnológica), diante do novo patamar de exigências
que está se impondo pela evolução tecnológica da sociedade. A UNESCO
considera o analfabetismo funcional a incapacidade de dominar as competências
e os meios necessários para a inserção profissional, para a vida social e
familiar e para o exercício ativo da cidadania apesar das experiências
herdadas da tradição e da prática (VALLE, 2000).
3.
Evolução da educação de adultos
Na aceção
que se tem na atualidade, a educação de adultos teve seu início no século
XIX, na Europa, em um momento marcado pelas mudanças sociais decorrentes da
industrialização e urbanização, gerando necessidade aos poderes públicos de
criarem meios de instrução, como capacitação ao trabalho o que, naquele
momento, significava um progresso e avanço social.
Na
história da educação, Manacorda (1992, p. 270) refere que, com a revolução
industrial, a educação transita da conotação política para social, visto que
aquele “processo de transformação do trabalho humano desloca massas inteiras
da população não somente das oficinas artesanais para as fábricas, mas também
dos campos para a cidade, provocando conflitos sociais, transformações
culturais e revoluções morais”. Diante da rápida evolução tecnológica da produção
fabril, impõe-se a necessidade de instrução das massas operárias e, por força
da realidade, criam-se, então, as escolas científicas, técnicas e
profissionais. Até este momento a educação formal estava reservada apenas às
elites.
Em
1889 aconteceram dois eventos em que foi tratado o tema educação de adultos:
o Congresso Nacional de Santiago do Chile e o Congresso Pedagógico de Paris.
Em seguida, em 1909, outro Congresso, sediado em Santiago de Compostela,
apontou que a educação de adultos deve ser assumida como uma necessidade
urgente de caráter sócio-educativo (VALLE, 2000). Já havia o entendimento
entre as autoridades em educação de que, diante das rápidas transformações
mundiais, a educação de adulto, em todas as suas formas, é mais do que
necessária para alavancar o desenvolvimento tanto individual como coletivo,
para fazer frente às demandas dos setores industrial, social e organizacional
da sociedade (RUUD, 1963; FRITSCH, 1971; VERNER; BOOTH, 1971).
Ao
longo do século XIX as universidades populares europeias foram impulsionadas
por intelectuais que buscavam minimizar os prejuízos do povo pelo incremento
da cultura. Se isto já ocorria há dois séculos, na atualidade se processa de
modo similar, guardadas as devidas proporções, diante das mudanças da
sociedade em franco processo de globalização (VALLE, 2004). O objetivo
essencial da educação de adultos continua o mesmo: permitir ao indivíduo uma
integração o mais plena possível nas circunstâncias da vida, ou seja,
impulsionar o adulto para o auto-desenvolvimento e, assim, gerar um potencial
capaz de influenciar nas desigualdades fruto, da rápida evolução da
sociedade. A Conferência de Hamburgo (1997) vem legitimar isto ao afirmar
que: durante a década atual a educação de adultos sofreu profundas transformações
e desenvolveu-se muito no seu alcance e na sua amplitude (...). As novas
exigências da sociedade e do trabalho suscitam expectativas e impõem a cada
indivíduo a necessidade de continuar a renovar os seus conhecimentos e
capacidades ao longo de toda a vida (UNESCO, 1998, p. 8).
3.1
As conferências internacionais sobre educação de adulto
A
UNESCO, principal organismo das Nações Unidas para a educação, vem
desenvolvendo um papel essencial nesta área, por meio das conferências dos
Estados-Membros, das Reuniões Gerais, dos Seminários e dos Congressos. Na
segunda metade do século XX, realizaram-se as cinco Conferências
Internacionais sobre Educação de Adultos (UNESCO, 2005; VALLE, 2000;
GUTIÉRREZ; JIMÉNEZ, 2005), conforme segue.
A
primeira Conferência aconteceu em junho de 1949, em Elsinore/Dinamarca, e
ocupou-se em definir o papel e objetivo da educação como um requisito básico
afim de satisfazer as necessidades dos adultos no desempenho de suas funções
econômicas, sociais e políticas para uma vida em comunidade mais harmoniosa.
A segunda teve lugar em Montreal/Canadá, em agosto de 1960, com o tema: A
educação de adultos em um mundo em transformação. Esta conferência cunhou um
valor extraordinário ao social, suscitando à UNESCO coordenar pesquisas nacionais
sobre o tema, com o suporte de especialistas da sociologia, economia,
psicologia. Dessa forma, tratou de valorizar a humanização, a tecnologia, a
cultura e a arte na formação do adulto, conferindo à educação um meio e
instrumento à construção da paz e da compreensão do mundo, bem como um
componente importante para o desenvolvimento socioeconômico.
A terceira delas foi sediada na cidade de
Tóquio/Japão, em agosto de 1972, com o tema: A educação do adulto num
contexto de educação permanente. A partir dela, a educação de adulto passa a
ter uma dimensão política, ao reconhecer que o analfabetismo é uma consequência
do subdesenvolvimento. Surge, também, a questão da alfabetização funcional,
no sentido de capacitação do homem para analisar criticamente seu meio e
lutar por sua transformação, incluindo a alfabetização enquanto capacitação
para o trabalho — em acelerado processo de transformação.
Já a
quarta conferência celebrou-se em Paris, em março de 1985, na qual se
observou que “o desenvolvimento da educação de adulto é condição
indispensável para a concretização da educação permanente e um fator
importante da democratização da educação”, e que também chama a atenção para
o aspeto da qualidade do ato educativo. Declara, ainda, o reconhecimento de
que o direito a aprender se constitui em um desafio para a humanidade. Esta
conferência, a exemplo da sua antecessora, continua encorajando e estimulando
os Estados Membros à participação das organizações não-governamentais nas
ações orientadas à educação de adultos para se somarem às iniciativas e aos
programas nacionais.
Em
julho de 1997, realizou-se em Hamburgo/Alemanha a V Conferência Internacional
sobre Educação de Adultos, com 1500 participantes, incluindo os
representantes políticos de 135 Estados Membros, ancorada no tema “A educação
das pessoas adultas, uma chave para o século XXI”. Dentre seus objetivos,
buscou sublinhar a importância da vida educativa em idade adulta e incentivar
os compromissos, em escala planetária, a favor do direito dos adultos à aprendizagem
ao longo da vida. Ela representa um avanço importante em relação às
anteriores, mais centradas na educação de adultos como subsistema
educacional, adentrando nas diversas dimensões da vida social, bem como
coloca essa educação no patamar de uma aprendizagem ao longo da vida,
objetivando permitir que as pessoas e as comunidades assumam o controlo do
seu destino e da sociedade para enfrentarem os desafios do futuro.
Neste
espaço temporal entre as Conferências de Paris e Hamburgo, a humanidade foi afetada
por profundas mudanças, decorrentes dos processos de mundialização e avanço
tecnológico, somadas à introdução de uma nova ordem internacional havendo,
com isto, grandes transformações nos domínios político, cultural e econômico.
A Declaração de Hamburgo assegura que “a educação de adultos ganhou mais
profundidade e amplitude e tornou-se um imperativo no local de trabalho, no
lar e na comunidade, à medida que homens e mulheres se esforçam por criar
novas realidades em todas as etapas da vida”. Esta expansão da conceção da
educação dos jovens e adultos consistem em um caminho para aumentar a
criatividade e a produtividade, que são indispensáveis para o enfrentamento
das exigências da sociedade globalizada (UNESCO, 1998, p. 15).
No
transcorrer destas cinco conferências, muitas outras convergiram para o
estabelecimento de um consenso internacional sobre o direito à educação e o
direito a aprender das pessoas jovens e adultas, no caminho de uma cidadania
democrática e participativa; como, por exemplo, o Seminário Latino-Americano
de Educação de Adultos, celebrado em Havana (1972); a 19ª Reunião da
Conferência Geral da UNESCO, em Nairobi/Kenya (1976); a Conferência Mundial
sobre Educação para Todos, em Jomtiem/Tailândia (1990); e a Conferência
Mundial de Educação, em Dakar/Senegal (2000).
3.2 A
quem compete o compromisso pela educação de adultos?
A V
CONFITEA estabelece que o desenvolvimento da educação de adultos exige a
colaboração entre “departamentos governamentais, intergovernamentais e
organizações não-governamentais, empregadores e sindicatos, universidades e
centros de investigação, meios de comunicação, associações civis e
comunitárias, instrutores de educação de adultos e dos próprios educandos
adultos” (UNESCO, 1998, p. 14).
Dessa
forma, a responsabilidade no gerenciamento da educação de adultos abrange
certa heterogeneidade entre os países, por exemplo: na França, o Estado e as
organizações locais e regionais se ocupam do tema; na Alemanha, o governo
ocupa-se de atividades de formação referentes a titulações acadêmicas, as
organizações locais gerenciam as atividades de formação em geral e as
empresas privadas agem tanto na formação básica como profissional; na Suécia,
há maior tradição neste assunto, pois originou as escolas populares e os círculos
de estudos, atualmente mais de um terço de sua população adulta participa dos
programas de educação (VALLE, 2000); na Suíça, cabe aos setores
governamentais a educação de adultos uma vez que as práticas educativas estão
divididas em três orientações: incremento sociocultural, nas Universidades
Populares, aperfeiçoamento profissional, na Federação Suíça para a Educação
de Adultos, e — qualidade de vida (DOMINICÉ; FINGER, 1990). Os Estados Unidos
é um país com maior solidez na educação de pessoas adultas, isto está
diretamente relacionado com a adesão da população às mudanças tecnológicas,
econômicas e sociais, bem como com a adaptação dos imigrantes à cultura
norte-americana e dos grupos menos favorecidos às mudanças do mercado de
trabalho. Neste contexto, as organizações não-governamentais têm um papel
importante, junto com instituições religiosas e sociais. (VALLE, 2000).
No
continente latino-americano, o panorama da educação de adulto, na última
década, é amplo e variado. Existe grande quantidade de programas
impulsionados pelos Estados (ministérios, secretarias de educação),
organizações não-governamentais e organismos internacionais, como o Centro
Regional de Educação de Adultos e Alfabetização para a América Latina
(CREFAL), que se ocupa de ações de formação e capacitação de pessoal técnico
e profissional dos Estados, no campo da alfabetização e da educação de
adultos e conta com o apoio financeiro da UNESCO e OEA (SEPÚLVEDA; GUTIÉRREZ,
2003).
O Ministro da Educação e do Desporto do Brasil – Paulo Renato Souza – em seu pronunciamento, por ocasião da Conferência Regional Preparatória da V CONFITEA, afirmou que a política nacional para a área de educação da população adulta está pautada na Educação de Jovens e Adultos (EJA), que tem como objetivo minimizar os efeitos decorrentes dos processos de exclusão do ensino fundamental e romper com problemas historicamente acumulados. Assim, a EJA é de responsabilidade prioritária dos estados, com o ensino médio, regular e profissionalizante, complementados pelos municípios, o ensino fundamental de oito séries. Porém, ela não se restringe apenas às ações governamentais, pois atuam também organizações não-governamentais, sindicatos, empresas entidades religiosas e universidades; e a sua abrangência é muito desigual entre as regiões do país. As atividades da EJA compreendem numerosos programas e variadas formas de atendimento, dentre os quais têm cursos supletivos de ensino fundamental e médio, com métodos de instrução presencial ou à distância, cursos de educação e qualificação profissionais (SOUZA, 1998).
4.
Caracterização teórica da educação de adultos
As
definições normativas relativas à educação de adultos evoluíram gradualmente
ao longo da segunda metade do século XX, como foi abordado na história das
conferências; diante disto, observa-se que os pressupostos educacionais
acompanharam esta evolução.
4.1
Pressupostos da ação educativa
O
adulto pode adquirir conhecimentos em seu ambiente societário, através das
experiências diárias vivenciadas e no ambiente educativo formal. Neste
último, identifica-se como educação de adultos quando se constitui em um
programa educativo, sistemático e planejado, dedicado às pessoas adultas.
Na
compreensão de Galván (2004), a educação de adultos não se constitui em si
mesma em um instrumento de transformação social, uma vez que seu significado
e sua intencionalidade dependem do marco ideológico-político-filosófico no
qual se assenta a proposta pedagógica. Entretanto, o autor afirma que a ação
educativa pode proporcionar mudanças nas estruturas sociais, no âmbito
individual — pelo desenvolvimento para o trabalho, pela inserção social ou
ocupação construtiva do tempo livre — ou como projeto político de
transformação da sociedade — com a participação ativa de seus membros.
Enquanto
fórum de discussão a respeito da educação de adultos, o início do
envolvimento das universidades, ocorre com a criação de um grupo
internacional de especialistas em educação do adulto, patrocinado pela
UNESCO, sediado em Bangor, norte do País de Gales, em setembro de 1956, no
seminário regional europeu intitulado: As Universidades e a Educação de
Adultos. Em 1960, em Sagamore, New York, ocorreu uma conferência patrocinada
pela UNESCO que conduziu ao estabelecimento de uma organização internacional
— o Congresso Internacional sobre a Universidade na Educação de Adultos —
cujo objetivo primeiro passa a ser a troca de informações e idéias sobre a
participação da universidade na educação de adultos (RUUD, 1963).
Para
tanto, a educação de adultos abarca uma diversidade de propostas educacionais
e, do ponto de vista metodológico, há marcada distinção segundo o fundamento
filosófico sobre o qual se assenta cada propósito educacional. No passado,
segundo Grattan (1964, p. 122), a educação adulta foi extremamente inflexível
e limitada por noções tradicionais nos processos educacionais, pois as
atividades de extensão universitária estavam limitadas à mera transmissão, a
pessoas maduras, de cursos de campus. O autor é enfático ao afirmar que “o
programa da educação de adultos deve adequar-se, quanto ao conteúdo, aos
métodos e objetivos, ao estudante adulto tal qual ele é — e não como os
colégios ou os professores presumem que ele seja, ou deva ser”. Passados
quarenta anos da sua publicação, esta afirmação é corroborada por Valle
(2000), ao referir que a educação de adultos, na maior parte dos casos, é um
sistema educativo pensado para crianças e aplicado para jovens e adultos;
grande parte do que lhes é ensinado não é prático, portanto falta adaptação
dos programas; e utilizam-se métodos que não levam em conta a experiência
acumulada dos adultos; e falta a formação específica aos profissionais que se
ocupam da educação das pessoas adultas.
Os
recursos a serem utilizados nessa educação envolvem variadas possibilidades,
como o uso da biblioteca, das séries de dissertações/palestras, dos recursos
visuais na forma de vídeos, teleconferências, filmes, documentários, estações
de rádio, principalmente as universitárias, entre outros (VERNER, 1971;
GRATTAN, 1964). A Conferência de Montreal, em 1960, já chama a atenção para a
utilização de alguns destes recursos na educação de adultos, por se tratarem
recursos de entretenimento popular dos adultos em todo o mundo. Por sua vez,
a Conferência de Tókio, em 1972, recomendou o uso de novos métodos e novas
técnicas na educação de adultos, levando em consideração os aspectos
biológicos, psicológicos e sociológicos na sua aprendizagem (UNESCO, 2005). A
Conferência de Hamburgo, também, avança ao concluir que “é essencial que as
abordagens da educação de adultos se assentem no patrimônio, na cultura, nos
valores e nas experiências anteriores das pessoas e que as diferentes
maneiras de pôr em prática essas abordagens facilitem a expressão de todo o cidadão”,
bem como sugere que os países se utilizem das novas tecnologias de informação
(UNESCO, 1998, p. 8).
Tais
prerrogativas estão em consonância com as teorias mais modernas da
aprendizagem, as quais garantem que a construção do conhecimento deve considerar
a bagagem sociocultural do aluno, a partir das referências da realidade em
que está inserido, passando da condição de objeto da aprendizagem para ser
sujeito, na condução de um processo educativo para a emancipação do cidadão
(DEMO, 2002). Assim, o processo formativo deve conceber-se de forma ordenada,
criativa, rigorosa e científica, cujos conteúdos propiciem o desenvolvimento
do sentido ético e do compromisso social das pessoas como responsáveis pela
sua vida e pelas suas organizações, para que o cidadão se converta em
participante ativo da sociedade (GALVÁN, 2004).
A
condição do saber emancipatório é, justamente, o que leva os adultos a
buscarem a educação nesta fase da vida. Muitas vezes, eles almejam se
preparar para empregos melhores, para ascensão profissional, para cumprimento
ou complementação da educação escolar e, até mesmo, pelo desejo de
auto-aperfeiçoamento no sentido de dar mais qualidade à sua vida. Porém, para
migrar do ensino clássico ao atual enfoque, proposto à educação do adulto,
exige-se que, antes de tudo, o professor esteja envolvido nesta migração e
bem preparado para desenvolver tal missão. Neste modelo de educação o
professor precisa assumir a postura de facilitador, de estimulador do grupo.
Assim, considerando o papel do docente, Llosa (2001, p. 33) afirma que “é
necessário construir uma pedagogia da participação que gere instâncias de
construção coletiva e de aprendizagem da participação” e pondera que a
necessidade da educação e o direito de todos a ela ao longo da vida, deve ser
responsabilidade do Estado.
4.2
Tendências teóricas na educação de adultos
O
conhecimento das teorias da educação ajuda aos educadores na “compreensão de
sua prática, permitindo-lhes situarem-se mais claramente no universo
pedagógico” (SAVIANI, 1992, p. 7). Esta premissa se reforça na afirmação de
Nietsche (1998, p. 121), pois “todas as manifestações ou práticas pedagógicas
refletem, explicita ou implicitamente, teorias ou tendências pedagógicas
vinculadas a um determinado fundamento ideológico”.
De
maneira geral, as ações educativas de formação de adultos, fazem-se em
detrimento da teoria e da pesquisa. “Os quadros conceituais são passíveis de
influências e de tradições muito diversas, como se pode ver na diversidade de
termos de referência utilizados: Educação de Adultos; Educação Permanente;
Educação Recorrente; Andragogia” (DOMINICÉ; FINGER, 1990, p. 19). O autor
situa tais terminologias, atinentes à educação de adultos, a partir de três
tradições filosóficas: liberal, humanista e crítica.
A tradição
liberal — que reporta à filosofia grega e medieval — consiste na pedagogia
das ciências humanas e apresenta uma visão humanista do homem, considerado
como um ser racional, moral, espiritual e dotado do senso estético. Essa
visão liberal configura uma concepção não utilitarista de educação, a qual se
coaduna com a idéia de uma formação permanente que se dá ao longo da vida. A
expressão educação permanente exprime um alargamento no campo da educação e
uma vontade democrática de acesso à educação de distintas populações e em
níveis diversificados de escolaridade (DOMINICÉ; FINGER, 1990). Libâneo
(2003, p. 21), por sua vez, afirma que a “pedagogia liberal sustenta a idéia
de que a escola tem por função preparar os indivíduos para o desempenho de
papéis sociais, de acordo com as aptidões individuais” e que ao se centrar no
desenvolvimento da cultura individual, esta tradição esconde a realidade das
diferenças de classes. Este autor também informa que a educação liberal se
iniciou com a pedagogia tradicional, evoluindo à escola nova ou pedagogia
renovada e, depois, à tecnicista; na concepção de Saviani (1992), estas
figuram como teorias não-críticas. Os dois autores afirmam que não ocorreu a
substituição de uma pela outra, uma vez que ambas estiveram e estão presentes
na prática escolar.
Ao
situar o nascimento da escola nova, Manacorda afirma que:
A
relação educação-sociedade contém dois aspectos fundamentais na prática e na
reflexão pedagógica moderna: o primeiro é a presença do trabalho no processo
da instrução técnico-profissional, (...) o segundo é a descoberta da
psicologia infantil com suas exigências “ativas”(...). Estes dois aspectos
disputam o grande e variado movimento de renovação pedagógica que se
desenvolve entre o fim do Oitocentos e o início do Novecentos, na Europa e na
América. (...) a instrução técnico-profissional promovida pelas indústrias e
pelos Estados e a educação ativa das escolas novas, de um lado, dão-se as
costas, mas, do outro lado, ambas se baseiam num mesmo elemento formativo, o
trabalho, e visam ao mesmo objetivo formativo, o homem capaz de produzir
ativamente (MANACORDA, 1992, p. 304-305).
Porém,
já nas primeiras décadas do século XX, “teve lugar a grande estação da
educação nova ou da “escola ativa”, que vimos nascer como um grande e
generalizado movimento de democratização da educação”, que já não se
restringe apenas à educação infantil (MANACORDA, 1992, p. 311).
Para
Dominicé e Finger (1990), a tradição humanista é a que mais difere das
outras, já que provém de duas vertentes: de um lado, deriva da filosofia
existencialista, da hermenêutica e da fenomenologia alemã e, por outro lado,
da psicologia humanista. No entanto, na classificação de Libâneo (2003), esta
tradição situa-se como uma versão da pedagogia liberal – a renovada
não-diretiva. A especificidade da tendência humanista reside no fato de que
ela leva a pensar a formação exclusivamente a partir do desenvolvimento
pessoal, não a partir de um projeto sociopolítico; mas, para as relações
interpessoais, é resultante do trabalho do psicólogo norte-americano Carl
Rogers (DOMINICÉ; FINGER, 1990; LIBÂNEO, 2003) e, também, de Abraham Maslow.
Esta formação está muito presente nos Estados Unidos, dando lugar ao conceito
de self-directed learning, admitida largamente no campo de educação de
adultos na sociedade americana; e Malcolm Knowles adotou o termo andragogia
para esta aproximação teórica (DOMINICÉ; FINGER, 1990).
A
segunda metade do século XX está marcada por dois fenômenos decisivos à
educação em nível mundial, que são o progresso tecnológico e a maturação das
consciências subalternas. Trata-se da “tomada de consciência por parte dos
jovens (especialmente estudantes) da desigualdade na relação educativa, como
parte da mais ampla desigualdade e opressão social” (MANACORDA, 1992, p.
335). Neste panorama, Dominicé e Finger (1990) situa a tradição crítica, que
se inscreve numa dimensão emancipatória e, acima de tudo, política, ancorada
na corrente marxista que se assenta na tomada de consciência da transformação
social.
Identifica-se
que Libâneo (2003, p. 32) cunha à tradição crítica o termo pedagogia
progressista, visto que ela parte de uma análise crítica das realidades
sociais para sustentar os fins sociopolíticos da educação. Esta pedagogia
tem-se manifestado nas tendências libertadora, libertária e crítico-social
dos conteúdos, sendo que a primeira delas se popularizou no mundo inteiro,
com o trabalho de Paulo Freire, no domínio da alfabetização de adultos. “As versões
libertadoras e libertária têm em comum o anti-autoritarismo, a valorização da
experiência vivida como base da relação educativa e a ideia da autogestão
pedagógica”, valorizando o processo de aprendizagem grupal.
Percebe-se
que esta tendência contempla a finalidade da educação de adultos, na medida
em que age como um elemento facilitador da apropriação dos recursos
necessários ao desenvolvimento pessoal (nos aspetos social, cultural e
econômico). Para alguns autores, ela abre caminho para uma participação
crítica e consciente, tornando o indivíduo capaz de cooperar, dialogar e
responder às suas responsabilidades de cidadão, contribuindo para o progresso
da própria sociedade. Assim, a educação de adultos se situa na perspetiva de
uma verdadeira “democracia cultural” (GALVÁN, 2004; VALLE, 2004).
Esta
contextualização das tendências educacionais serviu para descortinar a
andragogia, no contexto histórico-filosófico da educação de adultos. Apesar
de ela estar citada nas conclusões/recomendações da UNESCO — na III e IV
CONFITEA — não se encontra explícita, nestes documentos, uma distinção
metodológica/filosófica da educação na perspectiva andragógica, muito embora
se saiba que ela tem postulados que permitem situá-la no âmbito da educação,
conforme já apresentado.
5.
Postulados básicos da andragogia
O
termo andragogia foi formulado originalmente por Alexander Kapp, professor
alemão, em 1833; caiu em desuso e reapareceu em 1921, no relatório de
Rosenstok, sinalizando que a educação de adulto requer professores, métodos e
filosofia diferenciados. Eduard Lindeman, em 1927, adotou o termo de
Rosenstock e usou-o poucas vezes nos Estados Unidos. O vocábulo andragogia
foi utilizado amplamente, desde a década de 60, na França, Yugoslávia e
Holanda para se referir à disciplina que estuda o processo da instrução de
adulto ou a ciência da educação de adulto (Nottinghan Andragogy Group, 1983).
A
andragogia, enquanto teoria ou sistema de idéias, de conceitos e de
aproximações com a aprendizagem do adulto, foi introduzida e muito difundida
nos Estados Unidos por Malcolm Knowles, ao longo da segunda metade do século
passado. Indiscutivelmente, seus postulados consistem em uma importante
referência que se tem sobre o assunto de tal forma que, para muitos, o termo
andragogia e o nome Knowles tornaram-se intrinsecamente ligados.
Neste
trabalho, optou-se por descortinar a andragogia a partir dos fundamentos de
Knowles que, primeiramente, definiu o termo “andragogia como a arte e a
ciência de ajudar os adultos a aprender, em contraste com a pedagogia como a
arte e ciência de ensinar crianças”, porém, em seguida, ele reconheceu que a
andragogia encerra apenas outro modelo de princípios da aprendizagem
(KNOWLES, 1980, p. 43). Inclusive considera que “muitos dos princípios da
andragogia são pertinentes à educação de crianças e de jovens” (KNOWLEs,
1980, p. 58).
A
teoria andragógica está baseada em premissas que indicam distinções, do ponto
de vista da aplicabilidade do conhecimento e do método de ensinar, entre o
ensino voltado para alunos adultos e o ensino de crianças.
Apresentar-se-á
uma síntese dos princípios desta teoria de aprendizagem, que estão
alicerçados em, pelo menos, quatro suposições cruciais sobre as
características dos aprendizes adultos, que são diferentes das suposições
sobre as crianças em que a pedagogia tradicional é estabelecida como
premissa. Tais princípios levam em conta que, nos indivíduos amadurecidos:
1) Seu
auto-conceito move-se de um ser de uma personalidade dependente para um
autodirigido;
2) Seu
reservatório de experiência se acumula e se transforma em um recurso
crescente para aprender;
3) sua
prontidão a aprender torna-se orientada, cada vez mais, às tarefas de
desenvolvimento de seus papéis sociais;
4) Sua
perspetiva de tempo muda de uma ação de procrastinação do conhecimento à
imediata aplicação e sua orientação para a aprendizagem desloca-se de uma
aprendizagem centrada nas disciplinas a uma centrada no problema (KNOWLES,
1980, p. 44-45); o que confere o modelo de ensino centrado na resolução de
situação-problema, ou em metas como educação em saúde, capacitação
profissional, entre outras.
Já a
quinta premissa foi adicionada mais tarde, a motivação a aprender, que é
interna no indivíduo amadurecido (KNOWLES, 1984, p. 12).
Alcalá
coaduna-se com o pensamento de Knowles e caracteriza que a andragogia “sendo
parte da antropologia e estando imersa na educação permanente, desenvolve-se
através de uma práxis fundamentada nos princípios da participação e
horizontalidade”. O processo educativo é orientado pelo facilitador da aprendizagem
(professor), com o propósito de incrementar o pensamento, a autogestão, a
qualidade de vida e a criatividade do participante adulto, com vistas a lhe
proporcionar uma oportunidade para que atinja a auto-realização (1997, p.
20). O pensamento andragógico parte de uma visão alargada da pessoa adulta,
uma vez que permite ao indivíduo elaborar o conhecimento a partir da sua
visão de mundo, considerando o ambiente social e de acordo com a experiência
de vida pessoal, coletiva e institucional. Para Márquez (1998), a metodologia
que suporta o desenvolvimento deste processo educativo é a investigação-ação
participativa; e a sua fundamentação repousa na possibilidade do processo de
aprendizagem auto-dirigido.
Dentre
as implicações que envolvem a prática educacional considerando o modelo andragógico,
destaca-se que a missão do educador de adultos é de ajudá-los a desenvolver
todo o seu potencial. Este modelo utiliza-se de uma metodologia de ensino
destinada a atingir tal fim, na qual o papel do professor é de um facilitador
que provê as condições que propiciam a aprendizagem. Desta forma, este
processo envolve requisitos que se adequam à condição adulta (KNOWLES, 1980),
como, por exemplo:
1) o
clima da aprendizagem - este deve ser preparado de modo a permitir um
ambiente físico, como a decoração, os equipamentos, a acústica e a
iluminação, apropriado;
2) o
diagnóstico de necessidades – na prática tradicional a decisão sobre o
conteúdo cabe ao professor e, certamente, isto pode entrar em conflito com as
ambições do adulto a respeito do que ele necessita ou está motivado a
aprender. Neste modelo, “é colocada grande ênfase no envolvimento do aluno no
processo do auto-diagnóstico das suas necessidades do que aprender” (p. 47);
3) a
formulação de programas objetivos, de conteúdos, que irão satisfazer as
necessidades;
4) o
processo de planeamento do aprender envolve os estudantes e o professor serve
de guia do processo e na pesquisa do conteúdo;
5) a
condução da experiência do ensino-aprendizagem se dá em um processo de mútua
responsabilidade entre alunos e professor, o papel deste é de fornecer
adequadas técnicas e materiais à aprendizagem, e de ser mais um catalisador
do que um instrutor; e
6) a
avaliação da aprendizagem, como em todas as demais fases, se processa através
do mútuo entendimento, em que o professor ajuda aos alunos buscarem
evidências do progresso obtido, também, é discutido sobre o que facilitou ou
inibiu a aprendizagem dos estudantes, entre outros.
Apesar
da sua popularidade, à andragogia são impostas críticas, como, por exemplo,
Tennant (1997) o qual argumenta que o sistema de valores da andragogia está
centrado no âmbito individual e relega o grupo a um segundo plano. Hartree
(1984) questiona se esta é uma teoria ou um conjunto de suposições sobre a
aprendizagem e se os princípios encerram uma teoria ou orientam a prática
andragógica. Em outros trabalhos, também, encontram-se formulações oponentes
e proponentes à teoria andragógica, sendo estas em maior proporção, como se
verifica em: Brocket e Hiemstra (1991); Alcalá (2005); Carlson (1989); Holmes
e Abington-Cooper (2000).
6.
Considerações finais
Considerando-se
o que foi abordado — a história da educação de adultos, a orientação
norteadora do fazer da educação de adultos, os postulados sobre o valor da
educação ao longo da vida — torna-se imperativo que se avance em pesquisas de
diagnóstico/análise da realidade, no que tange à educação de adultos nas
diversas situações em que ocorrem.
Dessa
forma, os propósitos mundiais para educação de adultos, bem como a andragogia
precisam ser mais difundidos no meio acadêmico e na sociedade em geral, para
incentivarem a produção de conhecimento na área e a participação da população
adulta no locus de aprendizagem. O que se percebe é que, na prática, existem
muitos exemplos de ações educativas com adultos pautados nos princípios e
métodos andragógicos, porém não são identificados ou reconhecidos como tal.
Os
princípios e a metodologia andragógicos, propostos por Malcolm Knowles,
apesar de sofrerem críticas, situam-se como uma possibilidade de repensar o
fazer do professor e acredita-se que esta teoria tem muito a contribuir com a
educação, porque possibilita ao educador superar a viciada fragmentação do
ensino, e buscar uma atuação mais adequada à condição adulta. Entretanto,
admite-se que nenhuma teoria consegue encerrar-se em si mesma, pois na
prática educacional, na maioria das vezes, ocorre uma mescla de aproximações,
que se julga mais adequada ao propósito do ensino. No entanto, o professor
não pode se furtar de conhecer, em profundidade, os fundamentos e as
finalidades da (s) teoria(s) a que se propõe aplicar.
7. Referências ALCALÁ, A. Propuesta de uma definición unificadora de andragogia. Caracas, Venezuela: U.N.A., 1997. ______. Es la andragogia una ciência? Disponível em: <www.monografias.com/trabajos6/anci/anci.shtml>. Acesso em: 16 jun. 2005. BROCKETT, R. G.; HIEMSTRA, R. Self-Direction in adult learning: perspectives on theory, research, and practice. London: Routledge, 1991. CARLSON, R. Malcolm Knowles: apostle of andragogy. Vitae Scholasticae, v. 1. n. 8, p. 217-234, Spring, 1989. DEMO, P. Pesquisa e construção de conhecimento: metodologia científica no caminho de Habermas. 5. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2002. 123 p. DOMINICÉ, P. FINGER, M. L’éducation des adultes en Suisse. Zuric: Pro Helvetia, 1990. 93 p. FRITSCH, P. L’Éducation des adultes. Paris: École Pratique des Hautes Études: Mouton Library, 1971. GALVÁN, C. I. A. La educación de jóvenes y adultos. Disponível em: <www.fundamento.antropologico.htm>. Acesso em: 4 mar. 2004. GRATTAN, C. H. Educação de adultos: idéias norte-americanas de 1710 a 1950. Trad. Raul de Polillo. São Paulo: IBRASA, 1964. GUTIÉRREZ, J. C. ; JIMÉNEZ, E. M. Metodología para la educación de personas jóvenes y adultas subescolarizadas. Disponível em: <www.yosipuedo.com.ar/art_canfuz_marbot.htm>. Acesso em: 5 fev. 2005. HARTREE, A. Malcolm Knowles’ theory of andragogy: a critique. International Journal of Lifelong Education, v. 3, 1984. HOLMES, G. ABINGTON-COOPER, M. Pedagogy vs. andragogy: a false dichotomy? The Journal of Technology Studies. v. 26, n. 2, Summer-Fall, 2000. Disponível em: <http://scholar.lib.vt.edu/ejournals/JOTS/Summer-Fall-2000/holmes.html> Acesso em: 7 jun. 2005. KNOWLES, M. S. The adult education movement in the United States. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1962. 334 p. ______. The adult learner: a neglected species. 2. ed. Huston, Texas: Gulf Publishing Company, 1978. 244 p. ______. The modern practice of adult education: from pedagogy to andragogy. 2. ed. New York: Association Press, 1980. LIBÂNEO, J. C. Democratização da escola pública: a pedagogia crítico-social dos conteúdos. 19. ed. São Paulo: Loyola, 2003. 149 p. LLOSA, S. et al. La situación de la educación de jóvenes y adultos en la Argentina. Revista Brasileira de Educação, n. 18, set./dez. 2001. LUDOJOSKI, R. Andragogía o Educación del Adulto. México: Editorial Guadalupe, 1972. 270 p. MANACORDA, M. A. História da educação: da antigüidade aos nossos dias. 3. ed. São Paulo: Cortez: Autores Asociados, 1992. 382 p. MÁRQUEZ, A. Andragogía: propuesta política para una cultura democrática en educación superior. In: ENCUENTRO NACIONAL DE EDUCACIÓN Y PENSAMIENTO. 1.,1998, Santo Domingo, República Dominicana. Palestra. Santo Domingo, República Dominicana, 1998. Disponível em: <http://ofd_prd.tripod.com/encuentro/ponencias/amarquez.html>. Acesso em: 5 fev. 2005. NIETSCHE, E. A. As teorias da educação e o ensino da enfermagem no Brasil. In: SAUPE, Rosita (Org.). Educação em Enfermagem: da realidade construída à possibilidade de construção. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1998. 306 p. (Série Enfermagem-REPENSUL) NOTTINGHAM ANDRAGOGY GROUP. Towards a Developmental Theory of Andragogy. Nottingham, Malaysia: University of Nottingham Department of Adult Education, 1983. 48 p. RUUD, J. T. Universities and adult education. In: The european universities and adult education: report on the European Seminar Oslo, Norway: Scandinavian University Books, 1963. SAVIANI, D. Escola e democracia. 26. ed. Campinas, SP: Ed. Autores Associados, 1992. 104 p. _____. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez Ed. 1980. SEPÚLVEDA, L. GUTIÉRREZ, G. Notas sobre educación y trabajo em América Latina en la última década. Revista Digital UMBRAL 2000, n.13, set. 2003. Disponível em: <www.reduc.cl/reduc/sepulveda13.pdf> Acesso em: 5 fev. 2005. SOUZA, P. R. A Educação de jovens e adultos no Brasil (1996) no contexto da educação fundamental. Brasília, 1997. Anexo D. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto, 1998. Conferência Regional Preparatória da V Conferência Internacional sobre Educação de Adultos. TENNANT, M. Psychology and adult learning. 2. ed. London: Routledge, 1997. 160 p. CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE EDUCAÇÃO DE ADULTOS. 5., 1997. Hamburgo, Alemanha. Declaração final e agenda para o futuro. Lisboa, Portugal: UNESCO, 1998. Disponível em: <http://www.vsy.fi/eaea/eng/confinl.html#top> Acesso em: 5 fev. 2005. UNESCO. Documents of previous UNESCO Conferences on Adult Education. Disponível em: <www.unesco.org/education/uie/publications/confitea>. Acesso em: 5 Feb. 2005. VALLE, A. del. La educación de las personas adultas: temporalidad y universidad. Revista Educación – PUC del Perú, v. 9, n. 18, set. 2000. Disponível em: <www.pucp.edu.pe/publicaciones/rev-aca/educacion>. Acesso em: 4 mar. 2004. WERNER, C. BOOTH, A. Educación de adultos. México: Centro Regional de Ayuda Técnica, 1971.
Consultado a 31.03.2015. Disponível em,
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terça-feira, 31 de março de 2015
REVISÃO TEÓRICA SOBRE A EDUCAÇÃO DE ADULTOS PARA UMA APROXIMAÇÃO COM A ANDRAGOGIA
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